segunda-feira, 24 de março de 2014

A paixão é proletária

Não aceito a premissa de que o amor é uma “coisa” boa. Bom mesmo é a paixão!

Paixão é aquela coisa que te vira do avesso, te desestabiliza, te movimenta... Amor é aquela coisa insossa em que você fica de mãos dadas com o amado(a) planejando um futuro em comum... Na paixão você diz: “foda-se o futuro, vamos ficar nessa cama até os lençóis ficarem molhados de tanto suor!”

Paixão é gana, é víscera, é corpo, é toque, é mão, é língua...
Amor é o que vem depois da paixão. Menos gana, víscera e língua!

É sinal dos tempos... Todo mundo quer uma casa própria, passar em um concurso público e um amor... Alguém para compartilhar toda essa estabilidade burguesa que só a nossa sociedade (desigual) capitalista poderia nos proporcionar!

Opa, menos política e mais amor!
Não, péssimo negócio esse... Mais paixão!

Paixão implode com essa coisa toda: “foda-se a casa própria, vamos ficar nessa cama até os lençóis ficarem molhados de tanto suor!”; “larga essa apostila do ministério público e vem matar minha sede com a tua saliva!”... Na paixão nada se compartilha, tudo se consome: corpo, toque, mão e língua.

O amor é o aburguesamento moral da paixão: “vamos sair da cama antes que os lençóis de seda fiquem manchados de suor!”

E nessa sociedade, que nos vende a imagem de administrativos assalariados como vencedores, quem acaba vencendo é o amor...



Porque a paixão é proletária!

domingo, 9 de junho de 2013

Pré-estréia do filme Doméstica em Porto Alegre

A Sala de Cinema Paulo Amorim – na Casa de Cultura Mário Quintana – recebeu neste sábado (8 de junho), o seminário “Cinema Brasileiro Pra Quem?”. Promovido pela Associação de Críticos de Cinema do RS (Accirs) e a Cinemateca Paulo Amorim. Este encontrou visou ampliar a discussão sobre o conceito de “cinema irrelevante” proposto pelo crítico Jean-Claude Bernardet, que trata dos filmes que se apresentam como “irrelevantes” à lógica economicista e de mercado porém, com boa avaliação da crítica, destacando-se narrativa e esteticamente dos demais. Para debater este tema estavam presentes o documentarista Eduardo Escorel, o cineasta Jorge Furtado e o jornalista Luiz Zanin Oricchio, presidente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Como encerramento, tivemos a pré-estréia do documentário “Doméstica”, de Gabriel Mascaro.

Em “Doméstica” a câmera não penetra, ela demarca o lugar do outro. O lugar da empregada doméstica, que é [quase] da família. Na sinopse lemos: “sete adolescentes registram, por uma semana, o cotidiano de suas empregadas domésticas”. É deste ponto de vista que a narrativa é construída. É este o ponto de vista que a câmera assume: “suas empregadas domésticas”. Sua: pronome possessivo feminino; próprio ou relativo à 3ª pessoa do discurso. 

As trajetórias destas mulheres além de superficiais se apresentam de forma estática, negando uma tomada de consciência dos tempos superpostos que hierarquizam seus projetos de vida e delineiam o percurso de suas trajetórias. O tempo existente é do trabalho, é do doméstico. Esse tempo nunca é distendido, ele sempre é cortado ora por um telefone que toca, ora pela mão do próprio diretor/editor Gabriel Mascaro.

O filme se propõe como um ensaio sobre afeto e trabalho. Paradoxalmente o que mais falta é afeto. Os diálogos – que revelariam uma relação de afeto mútuo – são mínimos, o que vemos são respostas monossilábicas por parte das trabalhadoras e perguntas superficiais por parte dos adolescentes. Estes, protagonistas no discurso – quem segura a câmera é quem conta a história. Enquanto as domésticas, são o objeto do olhar do outro. Assim como, “Nanook, O Esquimó”, de Robert Flaherty, visível em sua prática, mas ausente em sua subjetividade.

O problema de “Doméstica” está na câmera que caiu em mãos erradas, provando que nem sempre imagens brutas podem ser salvas por uma edição bem intencionada.

Título: Doméstica
País: Brasil
Tempo: 85 minutos
Ano: 2013
Direção: Gabriel Mascaro



post scriptum: A pré-estréia do filme “Doméstica” foi antecedida por um debate muito interessante sobre o conceito de “cinema irrelevante”, perpassou as leis de incentivo e culminou na falta de um público que prestigie o cinema nacional. Pois bem, ao longo deste debate a sala estava lotada, com aproximadamente 120 pessoas. Após o coquetel, destas 120 pessoas, 20 (sendo generosa) permanecerem para prestigiar o filme de Gabriel Mascaro, “Doméstica”.

Deixo as conclusões para você, caro leitor!

sábado, 27 de abril de 2013

Tarantino sem Sally Menke

De "Cães de Aluguel" até "Bastardos Inglórios", Quentin Tarantino teve como seu braço direito a montadora Sally Menke, que morreu em 2010, aos 56 anos e sem ganhar um Oscar da Academia. "Django Livre" é o primeiro filme de Tarantino sem Sally Menke e isso é perceptível já nos primeiros minutos de filme. Veja bem, não estou dizendo que "Django Livre" seja ruim, “Django” é um excelente filme, mas falta algo de Tarantino nele: temos a violência, o sangue, os diálogos inteligentes, mas... Falta! Falta a mão precisa e rápida da montadora Sally Menke, uma das responsáveis pelo estilo Tarantino, com uma montagem dinâmica, que abusa dos planos curtos. Esse dinamismo não aparece em “Django”, com exceção de algumas cenas, como por exemplo, no flashback da vida do casal Django e Brunhilde, que lembrou muito o estilo Sally Manke de montar; aquela sucessão de planos milimétricamente enlaçados e que não deixam o espectador respirar, muito menos desgrudar os olhos da tela.
 
Fred Raskin assumiu o posto de Manke com competência, mas também, com um certo receio. Percebemos isso em seu corte comedido e sem muita ousadia. Mas a culpa não é Fred Raskin, esse receio também está no roteiro de Quentin Tarantino. Em relação aos seus filmes anteriores (com exceção de “À Prova de Morte” e “Jackie Brown”) a estrutura narrativa do filme não é dividida por capítulos e nem foi concebida de uma maneira completamente não linear. Ou seja, “Django Livre” tem uma estrutura narrativa linear e cronológica, e é neste ponto que percebemos o quanto a figura de Sally Manke se destacou, como uma das melhores e mais criativas montadoras dos últimos tempos.

Durante as filmagens, Tarantino pedia para que os atores
dessem um "olá" para Sally, que veria todo o material
na sala de edição.

Se hoje, compreendemos os filmes de Tarantino – o seu tempo diegético fatiado em mil pedaços que não seguem uma linearidade – devemos isso a Sally Menke, que juntou estes mil pedaços lançados por Tarantino, dando sentido à sua louca genialidade. Quentin Tarantino não foi o único responsável, por fazer de Pulp Fiction o filme mais reconhecido e influente da década de 90. Este mérito, sem sombra de dúvida, deve ser dividido com Sally Menke, que fez muito mais do que ligar um plano no outro; ela abriu escola, lançando um novo “sentido” e “forma” (Eisenstein, 2002) de montar. Para finalizar, eu gostaria de reiterar que “Django Livre” é um excelente filme. Porém, ele é o anúncio do tamanho da perda que Sally Manke representa, não só para Tarantino, mas também, para o cinema.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Agarrando Pueblo - Luis Ospina

Recentemente fiz um post sobre Un tigre de papel de Luis Ospina e neste final de semana tive o prazer de ver/conhecer outra obra deste diretor – Agarrando Pueblo. É uma pena que um diretor como Ospina seja pouco lembrado por aqui (Brasil). No site de relacionamento Filmow, por exemplo, constam apenas duas obras: Un tigre de papel e Agarrando Pueblo. O primeiro foi assistido por uma pessoa (vale frisar que eu fui a pessoa quem marcou como visto e também cadastrou o filme no site) e o segundo foi visto por 8 pessoas. Pode ser que os meus parâmetros de análise não sejam os mais indicados, mas parto do princípio que o filmow é um site bastante popular, com cerca de 300 mil usuários. Em suma, diante destes dados (ainda que sejam dados incipientes) me sinto no dever de escrever mais sobre este diretor e tecer algumas considerações sobre Agarrando Pueblo (não que eu seja grande coisa, mas tô fazendo a minha parte de ao menos apresentar esse diretor ao meu círculo de amigos). 
Luis Ospina, nasceu na Colômbia em 1949 e estudou cinema na Califórnia, onde fez seus primeiros curtas-metragens. Voltou para Colômbia e a partir dos anos setenta fez parte de um grupo preocupado em promover a cultura cinematográfica no país, através de uma proposta fílmica documental e contra as convenções da produção nacional. É neste contexto que se insere o filme Agarrando Pueblo; uma resposta contundente à “Cultura da Pobreza” de Oscar Lewis – muito em voga na época – parodiando a “pornomiséria” – prática indiscriminada de documentários que, com o pretexto de denunciar as agruras do terceiro mundo, perpetuavam os estereótipos da pobreza.
O filme acompanha uma equipe de filmagem que roda um “documentário” nas ruas e periferias de Cali e Bogotá para uma emissora de TV alemã, manipulando situações e criando personagens ao longo do caminho. Mais uma vez a mistura entre documentário e ficção se faz presente (ver Un tigre de papel) incitando a reflexão: “qual o nosso olhar sobre a pobreza?” ou melhor “sob que parâmetros ideológicos nosso olhar sobre a pobreza foi construído?”.
Diante de questões tão pertinentes e atuais, esta obra merece lugar de destaque, dentre as produções cinematográficas que ousam brincar com a hierarquia social.  E Ospina vai além, invocando para que a base da pirâmide social zombe daqueles que insistem em os olhar por cima.



Título: Agarrando Pueblo
País: Colômbia
Tempo: 28 minutos
Ano: 1977
Direção: Luis Ospina

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Essa estranha amizade homofóbica


Amizade (do latim amicus) deriva de amore (há quem diga que essa palavra vem do grego). Em suma, amizade e amor tem suas aproximações etimológicas e por tudo que aprendi e vivi em minhas relações humanas e sociais, concordo com o que a etimologia diz. Amizade é amor! É uma relação afetiva e como em toda relação de amor/afeto tendemos a desejar o melhor ao outro, neste caso, o nosso amigo.
As coisas começam a se complicar quando ouvimos o maior de todos os clichês homofóbicos: “Tenho vários amigos gays, mas sou contra que eles se casem”. Em outras palavras: “Tenho vários amigos gays, mas sou contra que eles sejam felizes”.
Por isso eu escrevo esse post, para que os usuários deste clichê respondam: Que significado amizade tem para vocês, no mundo de vocês? Porque no meu mundo, amizade é o que o latim (ou grego) disse que era... Amor. E no sofrido aprendizado das relações humanas e sociais eu aprendi que quando a gente ama uma pessoa, a gente quer que essa pessoa seja feliz! Que quando a gente ama; a gente ri, chora e luta junto. Mas parece que nesse estranho mundo da intolerância a amizade significa outra coisa.
Ah, mas sempre tem alguém para dizer: “Mas nós amamos os homossexuais, só não amamos o seu “homossexualismo” (com “ismo” mesmo, porque é assim que eles falam). Mas, antes que comece o blá blá blá que deus (com minúscula mesmo) não aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que tá na bíblia e blá blá blá... Eu vou sair na frente e dizer:

“O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade”. (Provérbios 17:17)

“Não abandone o seu amigo nem o amigo de seu pai; quando for atingido pela adversidade não vá para a casa de seu irmão; melhor é o amigo próximo do que o irmão distante”. (Provérbios 27:10)

E agora? Parece que o significado da palavra amizade (como amor e afeto) é universal... Até está nessa tal bíblia! Então, por que vocês distorcem isso? Amizade é uma coisa muito linda e não merece ser usada como arma da intolerância de vocês. Se você não concorda com o casamento gay, então não se case com alguém do mesmo sexo! Simples, assim... E, principalmente, não diga ser amigo de um gay, sendo que você é contra a sua felicidade. Disso, nem a onça gosta!